Incaper em Revista

Ano 1 - Nº 1 - Janeiro a Dezembro de 2010

INFORMATIVO ESPECIAL DO INSTITUTO CAPIXABA DE
PESQUISA, ASSISTÊNCIA TÉCNICA E EXTENSÃO RURAL

5.10. Atividades Rurais não Agrícolas

O mundo contemporâneo tornou o rural mais do que agrícola. Estudos recentes têm demonstrado que a vida no campo não mais se limita às tradicionais atividades agropecuárias. Esse novo universo, com frentes diversificadas de trabalho e renda, novas ocupações e oportunidades, pode ser visualizado na ampliação das chamadas atividades rurais não-agrícolas, com destaque para o agroturismo, as pequenas agroindústrias e o artesanato rural.

José Graziano da Silva, professor de Economia Agrícola da Unicamp, na contextualização do “Novo Rural Brasileiro” na década de 1990, descreve a transformação de caráter social e econômico operada no campo, protagonizada pela expansão das atividades rurais como a agroindústria, o artesanato, o turismo rural e outros. De fato, cerca de 4 milhões de pessoas estão ocupadas no meio rural com atividades que fogem à produção agrícola tradicional. Outros dados revelam que quatro em cada 10 trabalhadores adultos, nas áreas rurais, são remunerados por atividades não agrícolas, num crescimento de 35% em menos de dez anos.

Tradicionalmente, a agroindústria artesanal sempre esteve presente no cotidiano do campo, fruto da necessidade de aproveitamento da matéria-prima excedente. Tal atividade, até pouco tempo atrás, era considerada marginal devido à sua reduzida importância na geração de renda. Nos últimos anos, contudo, foi adquirindo importância econômica, gerando cada vez mais renda e emprego no meio rural, passando a integrar verdadeiras cadeias produtivas, envolvendo agroindústrias, serviços e comunicações. Ultrapassou-se assim, portanto, o âmbito estritamente familiar dos empreendimentos rurais para integrá- -los a um mercado mais amplo, transformando as atividades descritas em renda real.

Frente a este cenário, surgem novas exigências de adequação da infraestrutura e de fabricação que garantam a qualidade do produto ao consumidor em vista das normas estabelecidas pelos órgãos fiscalizadores. Aliados a estas exigências e considerando o seu modo de fazer, os produtos da agroindústria rural tem se revelado fator preponderante para caracterizar e promover as regiões onde se encontram.

O turismo rural, parte importante desse mosaico de atividades, começou a se expandir na década de 1960, no bojo dos desdobramentos do movimento “hippie” que inaugurou a celebração do retorno à vida simples, baseada no mundo natural. No Brasil, as primeiras experiências de turismo rural surgem mais tarde, em meados da década de 1980, em Santa Catarina, onde a aposta se volta para as ocupações complementares às atividades agrícolas.

No Espírito Santo, a implantação do agroturismo ocorreu no início da década de 1990, instalando-se inicialmente na região serrana, com seu clima ameno, topografia favorável e rica expressão cultural, além da proximidade e do rápido acesso à capital, Vitória. Esta nova atividade veio impulsionar o desenvolvimento da agroindústria artesanal, do artesanato regional e da produção agroecológica, alicerçada em princípios como a valorização da gastronomia local, da preservação do meio ambiente e das tradições culturais dos agricultores.

Como visto, o meio rural não é mais um ambiente restrito à produção de alimentos. Constitui-se em espaço dinâmico e promissor de desenvolvimento dos outros setores da economia. Exige ele, portanto, políticas públicas apropriadas para essas novas ocupações e atividades, frutos de uma transformação que vem ocorrendo em escala global e que se apresenta como desafio à atuação da assistência técnica, da pesquisa e de outras entidades de modo geral.


AGROINDÚSTRIA RURAL DE PEQUENO PORTE
Também conhecida como “Agroindústria Artesanal”, esta é uma atividade já consolidada no meio rural, permitindo a agregação de valor aos produtos da propriedade por intermédio do processamento artesanal dos mesmos. A matéria-prima, antes vendida a baixo preço aos atravessadores, passa a ser processada em unidades apropriadas de produção, favorecendo a permanência do homem no campo ao mesmo tempo em que permite uma melhoria de sua qualidade de vida, devido seu grande alcance sócio-econômico.

O Espírito Santo tem se destacado nesse cenário graças à sua localização geográfica, à diversidade de ambientes e da produção, à estrutura fundiária e à tradição existente nas famílias rurais, ofertando vantagens comparativas para a implantação de agroindústrias de origem animal e vegetal. Praticamente em todo o Estado estão instaladas pequenas agroindústrias artesanais, com predominância nas regiões onde o agroturismo está mais estruturado.

Principais produtos da agroindústria no Espírito Santo :

Doces: geleias, compotas, frutas cristalizadas;
Bebidas: polpas de frutas, vinhos, licores, cachaça;
Massas e panificados: pães, bolos, cucas, biscoitos típicos, massas diversas;
Derivados da cana-de-açúcar: rapadura, melado, açúcar mascavo;
Derivados da mandioca: farinha, polvilho, beiju;
Grãos: fubá de moinho de pedra, café torrado e moído;
Conservas vegetais: picles, antepastos, pimentas, temperos;
Laticínios: queijos diversos, iogurtes, ricota;
Embutidos e defumados: linguiça suína e bovina, salame, socol.

ARTESANATO
O artesanato é uma das mais fortes expressões da cultura de uma comunidade e importante atividade não agrícola, gerador de trabalho e renda e estimulante do exercício de cidadania e da autoestima das pessoas envolvidas. No Brasil, a atividade gera perto de 8,5 milhões de empregos diretos, movimentando cerca de R$ 3 bilhões ao ano, sendo a maioria dos artesãos constituída por mulheres (em torno de 87%).

No Espírito Santo, já foram cadastrados pela Secretaria de Estado do Trabalho, Assistência e Desenvolvimento Social -SETADES, cerca de 6.800 artesãos no meio rural e urbano que produzem em torno de três mil produtos, oriundos de matérias-primas variadas. Entre os municípios capixabas onde o artesanato está mais desenvolvido, com produção em maior escala e oferta no mercado, podemos citar: Anchieta, Piúma, Grande Vitória, Guarapari, Alegre, Guaçuí, Iconha, Baixo Guandu, Cachoeiro de Itapemirim, Dores do Rio Preto e municípios da região serrana nos quais o agroturismo vem sendo implementado com mais intensidade.

Dentre os produtos característicos da produção artesanal no Espírito Santo destacam-se as panelas de barro; as bonecas, flores e bolsas de palha de milho; os vasilhames, cestas, bolsas, jogos americanos de fibra de bananeira; as diversas peças decorativas confeccionadas a partir de produtos do mar; os balaios, peneiras e toda a cestaria de outras fibras naturais; os tapetes, bolsas, colchas de fios e de retalhos, sem esquecer as peças utilitárias e decorativas produzidas a partir da reciclagem do papel e de outros mAteriais.

Para atender melhor a atividade artesanal, algumas localidades têm investido na criação de uma infraestrutura específica para a comercialização dos produtos que, embora insuficiente, têm funcionado com o apoio das prefeituras municipais. As experiências com maior êxito no âmbito da comercialização do artesanato, todavia, estão diretamente ligadas à prática do associativismo entre os artesãos.

Matérias Primas mais utilizadas no artesanato

Produtos do mar: conchas, escamas de peixe, búzios, ossos de peixe, casca de ostra;
Fibras naturais: bananeira, taboa, bambu, coqueiro, milho, taquara, cana-da-índia e outros;
Produtos naturais: cipós, cascas, madeira, bambu, sementes, cascas de coco, frutos secos, bucha vegetal, resíduos de mármore, granito, bagaço de cana; Argila e barro;
Tecidos e fios: especialmente algodão e sintéticos, e Material reciclável: papel, papelão, plásticos, vidros, latas de alumínio.

As atividades rurais não agrícolas (agroturismo, agroindústria e artesanato) são apoiadas pelo Incaper por meio do “Programa Qualidade de Vida no Campo” (PQVC), instituído em 2000. O projeto tem como objetivo promover o desenvolvimento rural com ações norteadoras para a organização, educação (segurança alimentar, saúde da família e saneamento ambiental) e capacitação técnica dos agricultores que operam em escala familiar, especialmente daqueles inseridos nas atividades de agroindustrialização da produção, turismo rural/agroturismo e artesanato rural. As ações do PQVC são realizadas por técnicos do Incaper com formação nas áreas de Economia Doméstica e Ciências Agrárias. A coordenação do Programa, dentre outras atribuições, orienta e apóia tecnicamente as ações planejadas pelos técnicos dos escritórios locais de desenvolvimento rural (ELDR´s) do Instituto.

Matérias Primas mais utilizadas no artesanato

Hospedagem: pousadas, domicílio do produtor (Cama & Café); Atividades produtivas: produtos in natura (colhe e pague, pesque e pague) produtos da agroindústria, artesanato local; Alimentação: restaurantes rurais, casas de chá, café colonial, centros de degustação; Entretenimento e lazer: trilhas ecológicas, passeios de barco, a cavalo e charrete, pescaria (pesque e pague), contemplação de paisagens (mirantes), cachoeiras, caminhadas, e Manifestações culturais: festas regionais, músicas e danças típicas, casas de cultura, museus.

É importante destacar que enquanto protagonista no processo de implementação das atividades não agrícolas, o agricultor, ao fazê-las interagir com outros segmentos que lhe são pertinentes, contribui para o desenvolvimento rural sustentável e a melhoria da qualidade de vida no campo.

AGROTURISMO
O Espírito Santo foi um dos primeiros estados do Brasil a implantar o agroturismo em seu território, a partir de um projeto- piloto que contemplava a Região Serrana Central abrangendo os municípios: Afonso Cláudio, Castelo, Conceição do Castelo, Domingos Martins, Marechal Floriano, Vargem Alta, Venda Nova do Imigrante, Viana, Santa Maria de Jetibá, Santa Leopoldina e Santa Teresa. As iniciativas adotadas no projeto-piloto tiveram como referência o modelo italiano, especificamente da região do Vêneto. Posteriormente, novos municípios foram se integrando à atividade, com destaque para a região do Caparaó e da Grande Vitória.

O agroturismo caracteriza-se pelo contato direto entre o produtor e os consumidores. Enquanto fornecedor de produtos e serviços no turismo rural, o produtor domina toda a cadeia produtiva, o que lhe permite auferir renda mais elevada do que normalmente ocorre noutras propriedades dedicadas exclusivamente à agricultura tradicional.

As opções turísticas dependem dos atributos naturais das propriedades rurais e da atividade produtiva exercida pelo agricultor. Na prática, o sucesso do turismo rural se deve à combinação de interesses das partes. De um lado, o homem do campo necessitando criar alternativas para melhorar sua renda e, de outro, os residentes dos centros urbanos, fugindo do ritmo estressante das cidades em busca das suas raízes, do modo de vida simples do interior, da vivência com o natural, o saudável e o ecologicamente correto.